Hack Genial Controle de Processos | Trocador de calor E-101

Teoria: controle de temperatura em trocador de calor

Do funcionamento do trocador de calor ao projeto do controlador feedforward. Leia esta aba antes de usar o simulador, a aba do PID e a atividade prática.

Objetivos de aprendizagem

Ao final desta aba, você será capaz de:

  • explicar como um trocador de calor casco e tubos aquece um fluido com vapor e por que a temperatura de saída precisa ser controlada;
  • identificar a variável controlada, a variável manipulada e as perturbações, e interpretar a instrumentação segundo a norma ISA 5.1;
  • escrever e interpretar o modelo matemático do trocador (balanço de energia, equações diferenciais e funções de transferência);
  • diferenciar as estratégias de malha aberta, feedback, feedforward e feedback combinado com feedforward;
  • obter um controlador feedforward a partir da resposta ao degrau da perturbação e sintonizar um PID por uma regra prática;
  • relacionar a teoria com a implementação em um controlador lógico programável (CLP).

1. O trocador de calor

Um trocador de calor é um equipamento que transfere energia térmica de um fluido para outro sem misturá-los. No trocador casco e tubos E-101, estudado nesta página, o fluido de processo (água ou uma solução) escoa por dentro dos tubos, enquanto o vapor de aquecimento ocupa o casco, em volta dos tubos, como mostra a Figura 1. O vapor encontra as paredes dos tubos, que estão mais frias, condensa e libera o calor latente de condensação, uma grande quantidade de energia por quilograma de vapor, liberada praticamente à temperatura constante. Por isso o vapor é um meio de aquecimento muito usado: a potência térmica entregue ao fluido depende da vazão de vapor, e essa vazão é ajustada por uma válvula de controle.

Fluido entra (te, F)Fluido sai (T)Vapor entra (válvula)Condensado saiCalor Q: vapor para o fluidocasco com vapor, tubos com fluido
Figura 1. Esquema do trocador casco e tubos. O fluido de processo entra com temperatura te e vazão F, recebe o calor Q do vapor que condensa no casco e sai com temperatura T.

Três relações descrevem a troca de energia. A primeira informa quanta potência o fluido de processo recebe para sair mais quente do que entrou:

Q=F cp (T−te)(1)Q = F \, c_p \,(T - t_e) \tag{1}

Nessa equação, QQ é a potência térmica recebida pelo fluido, em kW; FF é a vazão mássica do fluido de processo, em kg/s; tet_e e TT são as temperaturas de entrada e de saída do fluido, em °C; e cpc_p é o calor específico a pressão constante do fluido, isto é, a quantidade de energia necessária para elevar em 1 °C a temperatura de 1 kg dele. Para a água, cpc_p vale cerca de 4,18 kJ/(kg·K). O produto F cpF\,c_p é a capacidade térmica da corrente, em kW/K, e indica quanta potência é preciso fornecer para aquecer toda a vazão em 1 °C.

A segunda relação informa quanta potência o vapor cede ao condensar:

Q=m˙v hfg(2)Q = \dot{m}_v \, h_{fg} \tag{2}

em que m˙v\dot{m}_v é a vazão mássica de vapor, em kg/s, e hfgh_{fg} é o calor latente de condensação, em kJ/kg (cerca de 2160 kJ/kg nas pressões típicas de uso). A terceira relação descreve a troca de calor através da parede dos tubos:

Q=U A ΔTlm(3)Q = U \, A \, \Delta T_{lm} \tag{3}

onde UU é o coeficiente global de troca térmica, em kW/(m²·K), AA é a área de troca, em m², e ΔTlm\Delta T_{lm} é a média logarítmica das diferenças de temperatura entre os dois fluidos nas extremidades do trocador. O coeficiente UU diminui com a incrustação, que é o depósito de sujeira ou de sais nas paredes e reduz a capacidade de troca.

Exemplo prático
Para aquecer 1000 kg/h de água (0,278 kg/s) de 25 °C para 80 °C, a potência necessária, pela equação (1), é Q=0,278×4,18×55≈63,9 kWQ = 0{,}278 \times 4{,}18 \times 55 \approx 63{,}9\ \text{kW}. Com hfgh_{fg} próximo de 2160 kJ/kg, a equação (2) indica uma vazão de vapor de cerca de 0,0296 kg/s, ou seja, aproximadamente 106 kg/h. Se a vazão de água subir 40%, a potência necessária também sobe 40% e a válvula de vapor precisa abrir mais.

Controlar a temperatura de saída é importante porque ela define a qualidade ou a segurança do produto. Em alimentos, a temperatura determina a segurança sanitária; em óleos, a viscosidade e a facilidade de bombeamento; em reatores químicos, a velocidade da reação. Variações de poucos graus podem comprometer o produto ou desperdiçar energia.

2. Variáveis do processo

Entendido o equipamento, é preciso nomear as grandezas que importam para o controle. A variável que se deseja manter em um valor desejado é a variável controlada, aqui a temperatura de saída do fluido, medida pelo transmissor TT-102. O valor desejado para essa variável é o setpoint, abreviado SP (do inglês set point), e o valor efetivamente medido é a variável de processo, abreviada PV (do inglês process variable). A variável que o controlador pode alterar para influenciar a variável controlada é a variável manipulada, aqui a abertura da válvula de vapor TV-101, que define a potência térmica entregue ao fluido.

Em torno disso atuam as perturbações, que são as variações que alteram a temperatura de saída sem que o controlador as tenha decidido. Duas delas são medidas por instrumentos: a vazão de processo, lida pelo FT-101, e a temperatura de entrada do fluido, lida pelo TT-101. Outras não são medidas, como a incrustação nos tubos, a variação da pressão do vapor e as perdas térmicas para o ambiente. Essa diferença entre perturbação medida e não medida será decisiva mais adiante, porque o controlador feedforward só consegue compensar as perturbações medidas, enquanto o feedback reage a qualquer perturbação que chegue a alterar a saída.

Também é útil o conceito de estado estacionário, também chamado de regime permanente: a condição em que todas as variáveis do processo permanecem constantes no tempo. Quando uma perturbação ocorre, o processo sai desse estado, passa por um período transitório e, se o controle for adequado, volta a um estado estacionário.

Exemplo prático
Num pré-aquecedor de água de uma indústria de laticínios, a vazão cai à noite e a água chega mais fria no inverno. Essas duas perturbações são medidas, e o feedforward pode compensá-las. Já o depósito de calcário nos tubos aparece aos poucos, não é medido por nenhum instrumento e só é percebido quando a temperatura de saída começa a se afastar do SP, situação em que somente o feedback atua.

3. Instrumentação e a norma ISA 5.1

Na norma ISA 5.1, cada instrumento recebe um identificador (tag) formado por letras e um número. A primeira letra indica a variável medida ou controlada (T para temperatura, F para vazão, H para acionamento manual). As letras seguintes indicam a função do instrumento (T para transmissor, I para indicador, C para controlador, Y para bloco de cálculo ou relé, V para válvula). O número identifica a malha de controle. Assim, TIC-101 é um controlador indicador de temperatura da malha 101.

Os instrumentos deste processo são os seguintes. O FT-101 é o transmissor de vazão, normalmente uma placa de orifício, e informa a vazão F. O TT-101 e o TT-102 são transmissores de temperatura, instalados na entrada e na saída do trocador. O TY-101 é um bloco de cálculo que forma a diferença entre o SP e a temperatura de entrada. O FY-101 multiplica essa diferença pela vazão e gera a demanda de energia do feedforward. O TIC-101 é o controlador PID de temperatura, responsável pelo feedback. O FY-102 soma as ações do feedforward e do feedback e gera o comando final, que a válvula de controle TV-101 executa. Por fim, o HIC-101 é a estação manual usada na estratégia de malha aberta.

As linhas tracejadas do diagrama P&ID representam sinais de instrumentação. Siga uma delas no simulador: a temperatura sai do TT-102, chega ao TIC-101, que calcula a correção, a qual é somada no FY-102 à demanda de energia e segue para a TV-101.

Experimento no simulador
Na aba do simulador, abra a visão P&ID e troque a estrutura de controle. Observe que o caminho do TT-102 ao TIC-101 só fica ativo quando há feedback, e que o FT-101 e o TT-101 só participam quando há feedforward.

4. Modelo matemático do trocador

Com a instrumentação identificada, é possível descrever o comportamento do trocador por equações. O fluido dentro dos tubos é tratado como um volume bem misturado, de massa MM (em kg) e temperatura TT uniforme. Aplicando o balanço de energia a esse volume, obtém-se a equação diferencial principal do modelo:

M cp dTdt=F cp (te−T)+Q−UA (T−Tamb)(4)M \, c_p \, \frac{dT}{dt} = F \, c_p \,(t_e - T) + Q - UA\,(T - T_{amb}) \tag{4}

O termo à esquerda é o acúmulo de energia no fluido. Os termos à direita são, nessa ordem, a energia que entra e sai com a corrente, o calor QQ recebido do vapor e as perdas térmicas para o ambiente. Nessas perdas, TambT_{amb} é a temperatura ambiente e UAUA é o produto do coeficiente de perdas pela área exposta, em kW/K.

O calor QQ não responde instantaneamente à válvula. O atuador tem um atraso, e a parede metálica armazena energia antes de transferi-la ao fluido. Esses dois efeitos são descritos por equações de primeira ordem:

τv dvdt=m−v(5)\tau_v \, \frac{dv}{dt} = m - v \tag{5}
τw dQdt=Qmax (1−f) v100−Q(6)\tau_w \, \frac{dQ}{dt} = Q_{max}\,(1-f)\,\frac{v}{100} - Q \tag{6}

Aqui, mm é o comando enviado à válvula pelo controlador, em %; vv é a abertura real da válvula, em %; τv\tau_v é a constante de tempo do atuador, isto é, o tempo que a válvula leva para completar cerca de 63% de uma variação de comando; τw\tau_w é a constante de tempo de aquecimento da parede; QmaxQ_{max} é a potência máxima transferida com a válvula totalmente aberta e o trocador limpo, em kW; e ff é a fração da capacidade de troca perdida por incrustação (no simulador, expressa em %).

Por fim, a temperatura medida pelo TT-102 não é a temperatura do fluido no instante atual. O fluido leva um tempo para percorrer a tubulação entre o trocador e o sensor, e o próprio sensor responde com atraso. Esse efeito é modelado por um tempo morto α\alpha (atraso de transporte puro, em s), seguido de um filtro de primeira ordem de constante de tempo τs\tau_s, e a medição ainda recebe ruído, que representa as flutuações aleatórias do sensor e da eletrônica.

No estado estacionário, todas as derivadas são nulas. Das equações (5) e (6) resultam v=mv = m e Q=Qmax(1−f) m/100Q = Q_{max}(1-f)\,m/100, e a equação (4) fornece a temperatura de saída:

T=F cp te+Q+UA TambF cp+UA(7)T = \frac{F\,c_p\,t_e + Q + UA\,T_{amb}}{F\,c_p + UA} \tag{7}

Para analisar o controle, convém linearizar o modelo em torno de um ponto de operação, isto é, estudar pequenas variações em torno do estado estacionário. Definindo a=F cp+UAa = F\,c_p + UA (em kW/K), obtêm-se três grandezas:

τ=M cpa,K=Qmax(1−f)100 a,K2=F cpa(8)\tau = \frac{M\,c_p}{a}, \qquad K = \frac{Q_{max}(1-f)}{100\,a}, \qquad K_2 = \frac{F\,c_p}{a} \tag{8}

A constante de tempo τ\tau (em s) é o tempo característico do fluido; KK é o ganho da válvula, em °C por % de abertura, e informa quanto a temperatura de saída varia, em estado estacionário, para cada 1% de variação da válvula; e K2K_2 é o ganho da perturbação, adimensional, e informa quanto a saída varia para cada 1 °C de variação em tet_e. Com isso, as funções de transferência do processo são:

Gp(s)=K e−αs(τs+1)(τws+1)(τvs+1)(9)G_p(s) = \frac{K \, e^{-\alpha s}}{(\tau s + 1)(\tau_w s + 1)(\tau_v s + 1)} \tag{9}
G2(s)=K2 e−αsτs+1(10)G_2(s) = \frac{K_2 \, e^{-\alpha s}}{\tau s + 1} \tag{10}

Uma função de transferência G(s)G(s) é a relação entre a transformada de Laplace da saída e a da entrada de um sistema linear, para variações em torno do ponto de operação e condições iniciais nulas, em que ss é a variável complexa de Laplace. O fator e−αse^{-\alpha s} representa um atraso puro de α\alpha segundos. Neste texto, Gp(s)G_p(s) descreve como a variável manipulada (o comando da válvula) afeta a temperatura de saída, e G2(s)G_2(s) descreve como uma perturbação (aqui, a temperatura de entrada) afeta a mesma saída. Repare que a perturbação entra diretamente no fluido, e por isso G2(s)G_2(s) tem menos atrasos que Gp(s)G_p(s), que passa pelo atuador e pela parede.

Exemplo numérico
Com F=1000F = 1000 kg/h (0,278 kg/s), cp=4,05c_p = 4{,}05 kJ/(kg·K), UA=0,22UA = 0{,}22 kW/K, M=8M = 8 kg, Qmax=136Q_{max} = 136 kW e f=0f = 0: F cp=1,125F\,c_p = 1{,}125 kW/K e a=1,345a = 1{,}345 kW/K. Então τ=8×4,05/1,345≈24\tau = 8\times 4{,}05/1{,}345 \approx 24 s, K≈136/(100×1,345)≈1,01K \approx 136/(100\times 1{,}345) \approx 1{,}01 °C/% e K2≈1,125/1,345≈0,84K_2 \approx 1{,}125/1{,}345 \approx 0{,}84. Isso significa que uma queda de 8 °C em tet_e, com a válvula fixa, reduz a temperatura de saída em cerca de 0,84×8≈6,70{,}84\times 8 \approx 6{,}7 °C.

Observe que a vazão FF aparece em aa. Se FF aumenta, aa cresce, e o ganho KK e a constante de tempo τ\tau diminuem. Isso torna a planta não linear: uma sintonia feita para uma vazão pode não ser adequada para outra. A seção "Equações da simulação", na aba do simulador, mostra esses valores atualizados em tempo real.

5. Fundamentos de controle

Controlar é fazer a variável de processo seguir o SP apesar das perturbações. A diferença entre os dois é o erro de controle, definido por:

e(t)=SP−PV(t)(11)e(t) = SP - PV(t) \tag{11}

Para saber se o controle foi bem executado, usam-se critérios objetivos. O primeiro é o erro em estado estacionário, a diferença que permanece entre o SP e a variável de processo depois que o transitório terminou. O segundo é o sobressinal, o quanto a variável ultrapassa o SP, em porcentagem da variação pedida. Há também o tempo de acomodação, necessário para que a variável entre e permaneça numa faixa em torno do SP (por exemplo, ±2%), e a rejeição de perturbação, que combina o desvio máximo causado pela perturbação e a rapidez do retorno ao SP. Importa ainda o esforço do atuador: um comando muito agitado desgasta a válvula.

Um critério que resume o desempenho global é o IAE (do inglês integral of absolute error, integral do erro absoluto). Ele é a área sob a curva do módulo do erro, calculada de 0 até o instante final de observação tft_f:

IAE=∫0tf∣e(t)∣dt(12)IAE = \int_{0}^{t_f} \left| e(t) \right| dt \tag{12}

A unidade do IAE é °C·s. Quanto menor o IAE, menor o erro acumulado e melhor o desempenho da malha. Como o erro é tomado em módulo, erros positivos e negativos não se cancelam. Por exemplo, um erro constante de 2 °C durante 30 s produz IAE = 60 °C·s, valor igual ao de um erro de 1 °C durante 60 s. O simulador calcula o IAE desde o último evento, de modo que se possam comparar estratégias com a mesma perturbação.

Além do desempenho, o controle precisa ser estável: a malha fechada não pode divergir nem oscilar sem amortecimento. O tempo morto e as constantes de tempo em série limitam o ganho que o controlador pode usar sem comprometer a estabilidade.

As próximas seções apresentam as estratégias de controle, da mais simples à mais completa: malha aberta, feedback, feedforward e a combinação dos dois.

6. Malha aberta

Em malha aberta, o comando, também chamado de ação de controle, é definido sem considerar o valor da saída. No trocador, o operador escolhe uma abertura fixa para a válvula, pela estação manual HIC-101, a partir do cálculo do estado estacionário, e essa abertura permanece até ser alterada manualmente. Pelas equações (4) a (6), com dT/dt=0dT/dt = 0, a abertura necessária para manter a temperatura de saída igual ao SP é:

v=100 [F cp (SP−te)+UA (SP−Tamb)]Qmax (1−f)(13)v = \frac{100\,\left[ F\,c_p\,(SP - t_e) + UA\,(SP - T_{amb}) \right]}{Q_{max}\,(1-f)} \tag{13}

Se as condições consideradas no cálculo se mantêm, a temperatura de saída permanece no SP. Quando ocorre uma perturbação, ou quando o modelo usado no cálculo tem erro, a saída se afasta do SP e o sistema não tem como perceber nem corrigir esse desvio, pois a medição da saída não é usada.

Exemplo prático
Com F=1000F = 1000 kg/h, te=25t_e = 25 °C e SP=80SP = 80 °C, a equação (13) resulta em uma abertura de cerca de 55%. Se a água de entrada passar a 17 °C, a temperatura de saída cai cerca de 0,84×8≈6,70{,}84 \times 8 \approx 6{,}7 °C, ficando em torno de 73 °C, e permanece nesse valor. Para conferir, use o botão "Ti cai 8 °C" na estrutura "Malha aberta" do simulador.

A malha aberta ainda é usada na partida de equipamentos, na operação manual durante a falha de um sensor e nos ensaios para identificar o modelo do processo, como o ensaio de resposta ao degrau que será visto na seção 8.

7. Feedback e controle PID

Para corrigir o que a malha aberta não corrige, fecha-se a malha com a medição da saída. No controle por realimentação (feedback), a temperatura de saída é medida pelo TT-102 e comparada ao SP, e o erro da equação (11) é entregue ao controlador, que calcula o comando da válvula. O controlador mais usado na indústria é o PID, cuja forma ideal é:

mc(t)=Kc e(t)+KcTI∫0te(τ) dτ+Kc TD de(t)dt(14)m_c(t) = K_c\, e(t) + \frac{K_c}{T_I}\int_0^t e(\tau)\, d\tau + K_c\, T_D \,\frac{de(t)}{dt} \tag{14}

Nesta equação, KcK_c é o ganho proporcional (em % de válvula por °C de erro), TIT_I é o tempo integral (em s) e TDT_D é o tempo derivativo (em s). A variável τ\tau dentro da integral é apenas uma variável auxiliar de integração. Os três termos têm papéis distintos. O termo proporcional reage ao erro do instante atual: quanto maior o KcK_c, mais rápida a resposta, porém menor a margem de estabilidade. O termo integral acumula o erro ao longo do tempo e, por isso, só deixa de crescer quando o erro é nulo; ele elimina o erro em estado estacionário, ao custo de maior sobressinal quando TIT_I é pequeno. O termo derivativo reage à taxa de variação do erro, antecipando a tendência e amortecendo a resposta, mas amplifica o ruído de medição.

Conforme o processo, usam-se variantes do PID. O controlador P usa apenas o termo proporcional e é simples, mas deixa erro em estado estacionário: para um processo de ganho estático KK e um degrau de SP de tamanho ΔSP\Delta SP, o erro final vale ΔSP/(1+KcK)\Delta SP/(1+K_c K). O controlador PI acrescenta a ação integral, elimina o erro em estado estacionário e é o mais usado em malhas de temperatura. O controlador PD acrescenta a ação derivativa ao P, responde mais rápido e com mais amortecimento, mas também deixa erro em estado estacionário e por isso é raro. O controlador PID reúne os três termos e é indicado quando o processo tem atrasos grandes e o ruído de medição é baixo. A aba "Como funciona o PID" permite visualizar cada termo em gráficos interativos.

Na prática, três cuidados tornam o PID aplicável. Primeiro, a derivada é calculada sobre a medição, −dPV/dt-dPV/dt, e não sobre o erro, para evitar uma variação brusca do comando (derivative kick) quando o SP muda em degrau, e é filtrada por uma constante de tempo TfT_f para reduzir o efeito do ruído. Segundo, a saída é limitada entre 0 e 100%. Terceiro, quando a válvula satura, o termo integral é congelado, técnica chamada de anti-windup; sem ela, a integral continuaria acumulando erro enquanto a válvula não pode responder (o windup) e causaria um grande sobressinal na recuperação.

Uma regra prática de sintonia é a SIMC. Ela parte de uma aproximação do processo por um modelo de primeira ordem com atraso, de ganho KK, constante de tempo τ\tau e tempo morto α\alpha, e propõe, para um controlador PI com resposta moderada:

Kc=τK (τc+α),TI=min⁡{τ,  4 (τc+α)}(15)K_c = \frac{\tau}{K\,(\tau_c + \alpha)}, \qquad T_I = \min\left\{\tau,\; 4\,(\tau_c + \alpha)\right\} \tag{15}

Aqui, τc\tau_c é a constante de tempo desejada para a malha fechada; a escolha τc=α\tau_c = \alpha dá uma resposta moderada, e valores maiores tornam a malha mais lenta e mais robusta. Com os valores do E-101 obtidos na seção 8 (K=1,01K = 1{,}01 °C/%, τ=27\tau = 27 s e α=12,5\alpha = 12{,}5 s), resulta Kc=27/(1,01×25)≈1,07K_c = 27/(1{,}01 \times 25) \approx 1{,}07 e TI=min⁡(27; 100)=27T_I = \min(27;\,100) = 27 s.

A limitação do feedback é que ele só age depois que o erro aparece. Em um processo com tempo morto e constantes de tempo grandes, uma perturbação já pode ter causado um desvio considerável antes que o controlador perceba e comece a corrigir.

8. Feedforward (alimentação avante)

Como o feedback só age depois que o erro aparece, surge a ideia de agir antes, quando a perturbação pode ser medida. No controle antecipatório, chamado de feedforward ou alimentação avante, a perturbação te(t)t_e(t) é medida e usada para calcular, antes que ela afete a saída, a correção que deve ser aplicada à variável manipulada m(t)m(t). O controlador feedforward tem função de transferência F(s)F(s) e contém um modelo do sistema: uma função de transferência que prevê como a saída y(t)y(t) será afetada pela perturbação e como ela responde à variável manipulada.

A Figura 2 mostra a estrutura. O sinal de referência R(s)R(s) (o SP) e a medição da saída, que passa pelo bloco H(s)H(s) do sensor e do transmissor, entram no primeiro somador, que calcula o erro. O controlador de realimentação Gc(s)G_c(s) gera a parcela Mc(s)M_c(s) do comando. A perturbação medida Te(s)T_e(s) segue por dois caminhos: um leva ao bloco F(s)F(s), que gera a parcela MF(s)M_F(s) do comando, e o outro representa o efeito físico da perturbação sobre a saída, descrito por G2(s)G_2(s). O segundo somador reúne as duas parcelas no comando M(s)=Mc(s)+MF(s)M(s) = M_c(s) + M_F(s), que atravessa o processo Gp(s)G_p(s). O terceiro somador mostra que a saída é a soma do efeito do comando com o efeito da perturbação.

Gc(s)Controlador F(s)Feedforward Gp(s)Processo G2(s)Efeito de te H(s)Sensor R(s)Mc(s)M(s)MF(s)Te(s) Y(s) +-++++
Figura 2. Diagrama de blocos com realimentação e feedforward. Somador 1: erro = R(s) menos a medição da saída (sinal + para R, sinal - para a realimentação). Somador 2: M(s) = Mc(s) + MF(s). Somador 3: Y(s) = efeito do comando + efeito da perturbação (ambos com sinal +). O ponto sobre a linha de Te indica que o mesmo sinal alimenta F(s) e G2(s); o ponto sobre a linha de Y indica a ramificação da saída para o terminal de saída e para a realimentação.

A condição ideal é que a perturbação não altere a saída. Suponha que o comando seja dado somente pelo feedforward, M(s)=F(s) Te(s)M(s) = F(s)\,T_e(s). Pelo diagrama, a saída é a soma do efeito do comando e do efeito direto da perturbação, Y(s)=Gp(s) M(s)+G2(s) Te(s)Y(s) = G_p(s)\,M(s) + G_2(s)\,T_e(s). Substituindo, resulta Y(s)=[Gp(s) F(s)+G2(s)] Te(s)Y(s) = [G_p(s)\,F(s) + G_2(s)]\,T_e(s), e a saída fica insensível a tet_e se o termo entre colchetes for nulo:

Gp(s) F(s)+G2(s)=0  ⇒  F(s)=− G2(s)Gp(s)(16)G_p(s)\,F(s) + G_2(s) = 0 \;\Rightarrow\; F(s) = -\,\frac{G_2(s)}{G_p(s)} \tag{16}

Esse resultado mostra por que o modelo é necessário: G2(s)G_2(s) descreve como a perturbação afeta a saída e Gp(s)G_p(s) descreve como a variável manipulada afeta a saída. O compensador usa o quociente das duas funções de transferência para calcular qual comando cancela o efeito da perturbação. O sinal negativo indica que o comando age em sentido oposto ao efeito da perturbação. Observe ainda que F(s)F(s) usa apenas a medição de tet_e e não usa a saída. Por isso, como se vê no diagrama, o feedforward não fecha nenhuma malha e não pode, por si só, causar instabilidade.

Passo 1: o modelo estático pelo balanço de energia

A primeira forma de obter o modelo é pela física do processo. Em estado estacionário, o calor necessário para manter a saída no SP é dado pela equação (13), e a parte que depende das perturbações medidas, tet_e e FF, é o calor F cp (SP−te)F\,c_p\,(SP - t_e). Dividindo-o pela capacidade da válvula, obtém-se a abertura do feedforward estático:

mF=100 F cp (SP−te)Qmax(17)m_F = \frac{100\,F\,c_p\,(SP - t_e)}{Q_{max}} \tag{17}

Na instrumentação do E-101, o TY-101 calcula a diferença SP−teSP - t_e e o FY-101 a multiplica pela vazão e escala o resultado em porcentagem de válvula. As perdas e a incrustação ficam fora desse modelo, e o feedback fica responsável por elas. Esse modelo, construído apenas com equações físicas, é chamado de modelo caixa branca, mas ele não descreve a dinâmica, isto é, o tempo que a perturbação e a válvula levam para afetar a saída.

Passo 2: o modelo dinâmico da perturbação pela resposta ao degrau

Em uma planta real, nem sempre se conhecem todos os parâmetros físicos. Nesse caso, a função de transferência da perturbação G2(s)G_2(s) pode ser obtida pela resposta ao degrau da perturbação, o que dá origem a um modelo caixa cinza: a estrutura do modelo é escolhida com base no conhecimento físico (aqui, um sistema de primeira ordem com atraso de transporte), e os parâmetros são estimados a partir de dados medidos. O procedimento é o seguinte. Primeiro, deixa-se o processo em malha aberta em estado estacionário, com a válvula fixa. Depois, aplica-se um degrau de amplitude Δte\Delta t_e na perturbação (por exemplo, uma queda de 8 °C na temperatura de entrada) e registra-se a temperatura de saída ao longo do tempo. Por fim, ajusta-se um modelo de primeira ordem com atraso de transporte:

G2(s)=K2 e−α2sτ2s+1(18)G_2(s) = \frac{K_2 \, e^{-\alpha_2 s}}{\tau_2 s + 1} \tag{18}

Os três parâmetros têm significado direto na curva de resposta. O ganho K2K_2 é a variação final da saída dividida pela amplitude do degrau, K2=Δyfinal/ΔteK_2 = \Delta y_{final}/\Delta t_e. O atraso puro, ou tempo morto, α2\alpha_2 é o intervalo entre o instante do degrau e o início da resposta da saída. A constante de tempo τ2\tau_2 determina a rapidez da resposta depois do atraso: a variação da saída é Δy(t)=K2 Δte (1−e−(t−α2)/τ2)\Delta y(t) = K_2\,\Delta t_e\,\left(1 - e^{-(t-\alpha_2)/\tau_2}\right) para t≥α2t \geq \alpha_2. Uma forma prática de obter α2\alpha_2 e τ2\tau_2 é o método dos dois pontos: anotam-se os instantes t28t_{28} e t63t_{63}, contados a partir do degrau, em que a saída atinge 28,3% e 63,2% da variação final. Como a resposta de primeira ordem com atraso atinge 63,2% em α+τ\alpha + \tau e 28,3% em α+τ/3\alpha + \tau/3, resulta:

τ=1,5 (t63−t28),α=t63−τ(19)\tau = 1{,}5\,\left(t_{63} - t_{28}\right), \qquad \alpha = t_{63} - \tau \tag{19}

Passo 3: o modelo do processo pela resposta ao degrau na válvula

O mesmo ensaio é repetido com um degrau no comando da válvula, mantendo a perturbação constante. A resposta é aproximada por um modelo de primeira ordem com atraso de transporte que resume a dinâmica de Gp(s)G_p(s), em que as constantes de tempo do atuador, da parede e do fluido são agrupadas em uma só:

Gp(s)≈K e−αsτs+1(20)G_p(s) \approx \frac{K \, e^{-\alpha s}}{\tau s + 1} \tag{20}

com K=Δyfinal/ΔmK = \Delta y_{final}/\Delta m (em °C por % de abertura) e τ\tau e α\alpha calculados pela equação (19) com os dados desse segundo ensaio.

Passo 4: o compensador feedforward

Substituindo os modelos (18) e (20) na equação (16), obtém-se o compensador:

F(s)=− K2K  τs+1τ2s+1  e−(α2−α) s(21)F(s) = -\,\frac{K_2}{K}\;\frac{\tau s + 1}{\tau_2 s + 1}\; e^{-(\alpha_2 - \alpha)\,s} \tag{21}

Cada fator tem uma função. O ganho estático −K2/K-K_2/K, em % de abertura por °C de perturbação, define quanto a válvula deve se mover para compensar o efeito final da perturbação. O quociente (τs+1)/(τ2s+1)(\tau s + 1)/(\tau_2 s + 1) é um avanço-atraso (lead-lag): o numerador, de constante τ\tau, acelera a ação porque o processo é mais lento que a perturbação, e o denominador, de constante τ2\tau_2, suaviza a ação. O último fator trata do atraso puro, e sua realizabilidade é discutida no passo seguinte.

Passo 5: o compensador é realizável?

A equação (16) pode resultar em um compensador que não se consegue implementar. O caso mais comum ocorre com o atraso puro. Se α2>α\alpha_2 > \alpha, a perturbação demora mais a chegar à saída do que o comando, e o fator e−(α2−α)se^{-(\alpha_2 - \alpha)s} é um atraso realizável: o compensador apenas espera esse tempo antes de agir. Se α2<α\alpha_2 < \alpha, o fator seria um adiantamento no tempo, que exigiria conhecer a perturbação antes de ela ocorrer, e não pode ser implementado. O atraso puro de Gp(s)G_p(s) não pode ser compensado pelo feedforward, porque o comando só chega à saída depois de α\alpha segundos, qualquer que seja o instante em que seja aplicado.

Há ainda o caso em que Gp(s)G_p(s) é de fase não mínima, isto é, tem zeros no semiplano direito do plano ss. Como os zeros de Gp(s)G_p(s) são os polos de F(s)F(s) na equação (16), o compensador teria polos instáveis. A solução é contentar-se com um feedforward menos perfeito: suprimem-se do modelo os fatores que representam os zeros do semiplano direito e o atraso puro, usando um modelo aproximado Gˉp(s)\bar{G}_p(s) no lugar de Gp(s)G_p(s):

F(s)=− G2(s)Gˉp(s)(22)F(s) = -\,\frac{G_2(s)}{\bar{G}_p(s)} \tag{22}

A parte suprimida não é compensada pelo feedforward, e o feedback fica responsável por corrigi-la. O exemplo da Atividade prática mostra esse caso: o processo tem Gp(s)=e−s/(10s+1)G_p(s) = e^{-s}/(10s+1) e a perturbação tem G2(s)=1/(4s+1)G_2(s) = 1/(4s+1). Suprimindo o atraso de 1 s, Gˉp(s)=1/(10s+1)\bar{G}_p(s) = 1/(10s+1) e F(s)=−(10s+1)/(4s+1)F(s) = -(10s+1)/(4s+1).

Uma verificação interessante é que o ganho estático identificado coincide com o do balanço de energia. Derivando a equação (17) em relação a tet_e e usando as definições de (8), resulta

K2K=100 F cpQmax(23)\frac{K_2}{K} = \frac{100\,F\,c_p}{Q_{max}} \tag{23}

Ou seja, o modelo caixa cinza reproduz o modelo físico no ganho e acrescenta a informação dinâmica que o balanço estático não tem.

Exemplo numérico com o E-101
Um degrau de -8 °C em tet_e, em malha aberta, leva a saída a uma queda final de cerca de 6,7 °C, com t28≈12t_{28} \approx 12 s e t63≈28t_{63} \approx 28 s. Pela equação (19), τ2≈24\tau_2 \approx 24 s e α2≈4\alpha_2 \approx 4 s, e K2=6,7/8≈0,84K_2 = 6{,}7/8 \approx 0{,}84. Um degrau de +5% na válvula eleva a saída em cerca de 5,1 °C, com t28≈21,5t_{28} \approx 21{,}5 s e t63≈39,5t_{63} \approx 39{,}5 s, o que dá K≈1,01K \approx 1{,}01 °C/%, τ≈27\tau \approx 27 s e α≈12,5\alpha \approx 12{,}5 s. Como α2<α\alpha_2 < \alpha, o fator de atraso é omitido, e o compensador fica F(s)=−0,83 (27 s+1)/(24 s+1)F(s) = -0{,}83\,(27\,s + 1)/(24\,s + 1) em % por °C. Para uma queda de 8 °C em tet_e, o feedforward aumenta a abertura da válvula em cerca de 0,83×8≈6,60{,}83 \times 8 \approx 6{,}6% no valor final, com um impulso inicial um pouco maior, de (27/24)×6,6≈7,5(27/24) \times 6{,}6 \approx 7{,}5%, produzido pelo avanço.

Feedforward e controle em cascata

O feedforward é frequentemente confundido com o controle em cascata, que também usa uma medição adicional. A diferença está no que é medido e em como o sinal é usado. Na cascata, mede-se uma variável intermediária do processo, afetada pela perturbação, e fecha-se com ela uma segunda malha de realimentação, mais rápida, dentro da malha principal. Por exemplo, em um tanque aquecido por óleo quente, a pressão do óleo p0(t)p_0(t) pode variar e alterar a vazão de óleo pela válvula. Se essa dinâmica é bem mais rápida que a da temperatura, uma malha secundária de vazão ou de pressão corrige a perturbação antes que ela chegue à temperatura. No feedforward, mede-se a própria perturbação, não se fecha malha alguma e calcula-se o comando com um modelo. Por isso, o feedforward não se restringe a perturbações rápidas, como a cascata, mas depende de bons modelos G2(s)G_2(s) e Gp(s)G_p(s). Sem o diagrama de blocos, é fácil confundir as duas estruturas; no diagrama, a presença de uma malha interna caracteriza a cascata, e um caminho que parte da perturbação e chega ao comando, sem retorno, caracteriza o feedforward.

Limitações e robustez

O feedforward tem limitações importantes:

  • O feedforward não constitui uma malha de controle: ele não observa a saída e, por isso, não verifica se acertou.
  • Ele só corrige perturbações medidas e incluídas no modelo. Uma perturbação não medida, como a incrustação, passa sem compensação.
  • Depende da qualidade do modelo, por exemplo, de um valor correto de cpc_p. Um erro de 3% no ganho do compensador deixa um erro em estado estacionário de alguns décimos de grau, que só o feedback consegue eliminar.

Para avaliar a robustez de um projeto, examina-se o comportamento do sistema quando a planta Gp(s)G_p(s) real difere da usada no projeto, por exemplo, com variações de ±10% no ganho e na constante de tempo. Mesmo com esse erro de modelo, a combinação de feedforward e feedback costuma manter a perturbação menor e mais rapidamente eliminada que o feedback sozinho, o que você verificará na Atividade prática. Por tudo isso, na prática, o feedforward é combinado com o feedback.

Experimento no simulador
Na estrutura "Só feedforward", use o botão "Ti cai 8 °C" (no simulador, a temperatura de entrada aparece como Ti, o mesmo tet_e desta aba) e observe o desvio, com e sem a compensação dinâmica. Depois use "Incrustação +15%" e observe o erro em estado estacionário: o feedforward não mede a incrustação. Na aba "Atividade prática", você executará todo o procedimento deste capítulo em um tanque aquecedor: do ensaio dos modelos G2(s)G_2(s) e Gp(s)G_p(s) ao projeto de Gc(s)G_c(s) e F(s)F(s) e à comparação com e sem feedforward.

9. Feedback e feedforward combinados

Cada técnica tem uma limitação que a outra resolve, e por isso são combinadas. Na Figura 2, o comando que chega ao processo é M(s)=Mc(s)+MF(s)M(s) = M_c(s) + M_F(s), em que Mc(s)=Gc(s) [R(s)−H(s) Y(s)]M_c(s) = G_c(s)\,[R(s) - H(s)\,Y(s)] é a parcela do controlador de realimentação (no E-101, o PID) e MF(s)=F(s) Te(s)M_F(s) = F(s)\,T_e(s) é a parcela do feedforward. Combinando as relações do diagrama, a saída em malha fechada é:

Y(s)=Gc Gp1+Gc Gp H R(s)+G2+Gp F1+Gc Gp H  Te(s)(24)Y(s) = \frac{G_c\,G_p}{1 + G_c\,G_p\,H}\, R(s) + \frac{G_2 + G_p\,F}{1 + G_c\,G_p\,H}\; T_e(s) \tag{24}

A equação (24) resume a vantagem da estrutura. O primeiro termo mostra que o feedback faz a saída seguir a referência. No segundo termo, se o compensador for ideal, F=−G2/GpF = -G_2/G_p, o numerador G2+Gp FG_2 + G_p\,F se anula e a perturbação medida deixa de afetar a saída. Como o modelo nunca é perfeito, o numerador não é exatamente nulo, e o feedback reduz o efeito do que sobra, dividindo-o por 1+Gc Gp H1 + G_c\,G_p\,H. Note também que F(s)F(s) aparece apenas no numerador. O denominador, que determina a estabilidade, depende só de GcG_c, GpG_p e HH: acrescentar o feedforward não altera a estabilidade da malha fechada.

Em estado estacionário, no ponto de operação do simulador, o feedforward fornece a maior parte do comando (cerca de 47%) e o feedback fornece uma correção pequena (cerca de 8%), que corresponde às perdas térmicas que o modelo do feedforward não inclui.

Comparando as quatro estratégias diante das mesmas perturbações, o quadro é o seguinte. Em malha aberta, qualquer perturbação, medida ou não, deixa erro em estado estacionário. Só com feedback, as duas são corrigidas, mas apenas depois que o erro aparece, o que pode ser lento num processo com atrasos. Só com feedforward, as perturbações medidas são tratadas muito bem e logo no início, porém as não medidas, como a incrustação, deixam erro em estado estacionário, e o resultado depende da qualidade do modelo. Com as duas ações combinadas, obtém-se a rapidez do feedforward para o que é medido e a correção do feedback para o restante. Como o feedback corrige apenas a parte residual, o PID pode ser sintonizado de forma mais suave, o que reduz oscilações e esforço do atuador.

10. Implementação em CLP

Da teoria à prática, alguns cuidados tornam o controle utilizável em uma planta real. Um CLP (controlador lógico programável) executa o algoritmo de controle em ciclos de tempo fixos. O transmissor envia um sinal analógico de 4 a 20 mA, que o CLP converte para a unidade de engenharia da variável, por exemplo, para a temperatura:

T=Tmin+I−416 (Tmax−Tmin)(25)T = T_{min} + \frac{I - 4}{16}\,\left(T_{max} - T_{min}\right) \tag{25}

em que II é a corrente medida, em mA, e TminT_{min} e TmaxT_{max} são os extremos da faixa calibrada do transmissor. O tempo de amostragem do controlador (0,5 s no simulador) deve ser bem menor que a menor constante de tempo relevante da malha. As entradas do feedforward e a derivada do PID são filtradas, porque multiplicações e derivadas amplificam o ruído. Na passagem do modo manual para o automático, usa-se a transferência sem salto (bumpless transfer): o controlador assume o comando atual da válvula, em vez de um valor arbitrário que causaria uma variação brusca. A saída é limitada entre 0 e 100%, e o termo integral é congelado quando a válvula satura (anti-windup). Por fim, alarmes de temperatura alta, temperatura baixa e desvio em relação ao SP completam a proteção, como se vê no sinótico.

Exemplo prático
Um TT-102 calibrado de 0 a 150 °C que envia 12 mA indica T=0+(12−4)/16×150=75T = 0 + (12-4)/16 \times 150 = 75 °C. Se a corrente cair abaixo de 3,8 mA, o CLP deve acusar falha de sensor e transferir o controlador para manual. Sem essa proteção, a leitura falsa de 0 °C faria o controlador abrir a válvula totalmente.

11. Roteiro de estudo sugerido

Para estudar este material com proveito, siga uma sequência. Leia as seções 1 a 4 e identifique, no diagrama P&ID do simulador, cada instrumento citado. Em seguida, abra o simulador em malha aberta e use o botão "Ti cai 8 °C", comparando a queda observada com o valor calculado na seção 4. Passe para a estrutura só feedback, repita o degrau e compare o IAE e o desvio máximo, variando o tipo de controlador (P, PI, PD ou PID) e os parâmetros. Na aba "Como funciona o PID", gere o erro e acompanhe a área da integral crescendo. Experimente o modo só feedforward com os degraus e com a incrustação e, por fim, use feedback combinado com feedforward, comparando as quatro estruturas com a mesma sequência de perturbações. Para consolidar, faça a aba "Atividade prática", em que você mesmo obtém o modelo da perturbação, projeta o compensador e compara o desempenho com e sem feedforward.

12. Glossário e quiz

Fixe os termos e os símbolos principais e, em seguida, teste o que aprendeu.

Termo ou símboloSignificado
SP, PVSetpoint (valor desejado) e variável de processo (valor medido).
e(t)Erro de controle, SP menos PV.
cpCalor específico a pressão constante, em kJ/(kg·K).
F, te, TVazão do fluido de processo, temperatura de entrada (a perturbação medida, que no simulador aparece como Ti) e temperatura de saída.
Q, QmaxPotência térmica transferida ao fluido e potência máxima do trocador limpo, em kW.
M, UA, TambMassa de fluido retida nos tubos, coeficiente de perdas térmicas e temperatura ambiente.
τv, τw, τsConstantes de tempo do atuador da válvula, da parede e do sensor, em s.
αTempo morto ou atraso puro de uma função de transferência, em s.
Gc(s), H(s)Funções de transferência do controlador de realimentação e do sensor com o transmissor.
Gp(s), G2(s)Funções de transferência do processo (do comando m à saída y) e da perturbação (de te à saída y).
K, K2Ganho do processo (°C por % de abertura) e ganho da perturbação (adimensional).
τ, τ2Constantes de tempo do processo e da perturbação, em s.
FOPDTModelo de primeira ordem com atraso de transporte (first order plus dead time).
F(s)Função de transferência do compensador feedforward (alimentação avante), F(s) = -G2(s)/Gp(s).
m(t), mc, mFComando enviado à válvula e suas parcelas, do controlador de realimentação (mc) e do feedforward (mF).
Kc, TI, TDGanho proporcional, tempo integral e tempo derivativo do PID.
Estado estacionárioCondição em que as variáveis permanecem constantes no tempo (regime permanente).
IAEIntegral do erro absoluto, em °C·s, medida de desempenho global.
WindupAcúmulo excessivo do termo integral quando a saída do controlador está saturada.
BumplessTransferência sem salto no comando ao trocar de modo.

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